Atendendo a um pedido de um
amigão da Internet, prontifiquei-me a falar um pouco de uma edição muito
especial de Zé Carioca. Falo pouco no papagaio, sim, porque, embora ele seja
brasileiro, acabo desviando-me para outros personagens. Desde quando fiquei sabendo
que suas histórias estavam sendo reedições, meu interesse em comprar suas
revistas diminuíram bastante e, há menos que algo novo aconteça, a tendência é
deliciar-me com ele e sua turma apenas quando aparecem esporadicamente em
publicações como Disney BIG e similares. Tenho carinho por ele, desejo de
montão que haja novidades, mas o mundo de um ser humano que não é bem
favorecido financeiramente não permite que se adquira material por mera
benevolência. Faço votos de que logo venham as boas novas e que toda a turma desse
simpático personagem Disney possa revigorar-se e despertar de um longo sono.
Como disse, há alguns dias,
comentei com alguém sobre uma edição que a Abril publicou há alguns anos – era
uma época em que as revistas dos personagens Disney estavam indo muito mal, mas
o setor de publicação de quadrinhos em geral encontrava-se igualmente abalado.
Chegamos a pensar que talvez o Brasil fosse dar um tempo em sua freqüente
produção de revistas a não ser que nos contentássemos com a turma da Mônica,
que vinha resistindo também às duras penas ante essa turbulência. Vários
títulos perderam-se ao longo desses anos nebulosos: MAD, GERALDÃO, CHICLETE COM
BANANA, O MENINO MALUQUINHO etc.
Uma opção supostamente viável
para a editora foi lançar um grande encadernado contendo várias revistas de
determinado personagem. Assim foi feito com o Donald, Mickey, Patinhas e também
Zé Carioca, é claro! Esse encadernado – o qual carinhosamente chamo de
“Frankstein” – aglutina nada mais do que
umas dez revistas, aproximadamente. Muitas edições têm até a capa e as datas de
expediente... é como se simplesmente reunissem todas e colassem na sequência,
resultando nessas quinhentas páginas. Está aí algo que talvez podemos chamar de
“o irmão mais velho de Disney JUMBO” – a diferença é que, embora este
lançamento de Janeiro de 2012 seja muito semelhante pelas vias técnicas, seu
conteúdo é ímpar, resultado de uma grande seleção de HQs memoráveis de várias
edições diferenciadas; na Disney JUMBO, encontramos conteúdo dos títulos:
AVENTURAS DISNEY, PATO ODNALD, MICKEY, ZÉ CARIOCA, ALMANAQUE DISNEY, TIO
PATINHAS, AS OBRAS COMPLETAS DE CARL BARKS, só para dar uma idéia; o conteúdo
de seu irmão mais velho, como mesmo citei, é só referente a um título. Se é do
Zé Carioca, encontraremos só as suas revistas, na íntegra, sem revisão,
restauração, recolorização, sem nada disso – as revistas são reunidas tal como
estão desde a época de suas primeiras publicações, então, pode-se dizer que é
uma reunião de edições originais que, se pecam pela qualidade que acabou
perdendo-se no desgaste natural das intempéries do tempo, por outro lado,
acabam valorizando-se por mostrarem-se originais, intocáveis, virgens até a
última página.
Não posso dizer pelas outras, mas
foi isso que constatei no meu Frankstein do Zé: são revistas antiqüíssimas, que
comportam as edições do número 531 até o 555, só que tem uma particularidade aí
– naquela época, sabem-se lá os motivos, o título era assim: “O PATO DONALD APRESENTA:
ZÉ CARIOCA”; o papagaio dominava as edições do pato nos números ímpares e a
data é, mais precisamente, 1962.
Contendo pouco mais de 30 páginas
cada, era perfeitamente possível encontrarmos HQs com o indiozinho Havita, o
cão Banzé, os esquilos Tico e Teco, os três porquinhos, Pateta, Mickey e mais
alguns outros personagens que serviam para compor um “mix”. Portanto,
levando-se em consideração que tenho comigo mais de 20 números literalmente
colados, presume-se que a variedade de núcleos diferenciados Disney é boa.
É claro que quem lidera cada
revista é o Zé. Mas qual foi minha surpresa em constatar que aquele não era o
personagem cujo perfil era-me conhecido – tratava-se de um ser diferente, com
características até então inéditas para mim. Li histórias onde Zé Carioca
contracena com Chiquinho e Francisquinho (os sobrinhos do Mickey). “Uai, sô!” –
foi minha primeira reação – “O que esses meninos estão fazendo aí se existem
Zico e Zeca?” Em seguida, mais surpresas:
- Pateta interagindo com o Zé
(vemos o papagaio em algumas tramas fazendo o papel de Mickey);
- Huguinho, Zezinho e Luisinho
ouvindo historinhas do Zé, que exibia um álbum de recordações;
- Zé Carioca com os sete anões da
Branca de Neve, e com bruxas... tudo muito chocante e (por que não dizer?)
incrível!
Está aí algo que realmente me
causou certo embaraço. Não podia imaginar aventuras desse tipo com Zé Carioca.
Muito menos ver um diálogo entre ele e Rosinha como se fossem Mickey e Minnie.
Ficou tudo muito “over” na minha mente que não repudiou, não criticou, não
rejeitou, mas ficou, sim, um tanto atônita com tamanho conteúdo.
Em busca de informações, fiquei
sabendo pelo Fernando Ventura
(artista brasileiro que mantém certo vínculo às publicações de quadrinhos da
Editora Abril) que todas essas aventuras foram feitas por manda mais, manda
menos que o primeiro Mestre Disney brasileiro – Jorge Kato.
Jorge Kato começou a trabalhar como letrista em 1953 e, logo,
passou a desenhar as capas das publicações brasileiras Disney. Sua primeira
história, no entanto, foi publicada em 1959. Os anos seguintes foram essenciais
para que esse mestre mostrasse seu real valor à editora. Muitas histórias foram
feitas e, em 1962, passou a adaptar algumas obras originárias dos Estados
Unidos – diz a lenda, que o trabalho de adaptação consistia em refazer as obras
com outros personagens no lugar dos originais; mudava-se uma ou outra coisa,
mas preservava-se praticamente grande parte do material; assim foi feito,
então, com esses respectivos trabalhos do Zé; verdade ou não, justifica-se
tantas diferenças e fatos notórios encontrados.
Na década de 70, Jorge Kato foi
também editor das publicações Disney/Abril e teve participação especial na
fundação de uma escola de talentos profissionais da editora. Esse segmento
obteve bastante sucesso, pois proporcionou um grande número de aventuras
genuinamente brasileiras com os personagens mais queridos de todos os tempos.
Dentre vários artistas que por lá passaram e deram sua contribuição, podemos
destacar o Euclides Miyaura e também Eli Leon.
A primeira HQ de Jorge Kato, no
entanto, teve como foco principal o Tio Patinhas. A história chama-se PAPAI
NOEL POR ACASO e foi publicada na edição de O PATO DONALD 424, de 22 de
Dezembro de 1959. Em seguida, veio O PERU DE NATAL, publicada em O PATO DONALD
425, de 29 de Dezembro de 1959. Em 1960 foi que teve seus primeiros trabalhos,
com o Zé Carioca à frente, publicados pela editora. São eles:
- A VOLTA DO ZÉ CARIOCA (O PATO
DONALD 434 – 1 de Março de 1960);
- VOCÊ JÁ FOI A BRASÍLIA (O PATO
DONALD 435 – 8 de Março de 1960);
- UM PAPAGAIO DAS ARÁBIAS (O PATO
DONALD 440 – 12 de Abril de 1960).
Jorge Kato já era bastante
conhecido nos Estados Unidos no início dos anos 40 pelo seu trabalho com o
papagaio. Só que o pessoal da terra do Tio Sam não dava muito o braço a torcer
pelos seus trabalhos. Ainda assim, alguns jornais de lá exibiram, sim, suas
tiras durante certo tempo. Com o passar de alguns anos, a rejeição pelo
personagem foi tamanha que o mestre viu-se motivado a investir seus trabalhos
apenas no Brasil. Quando publicou as primeiras aventuras brasileiras do Zé,
como vê logo acima, ainda não existia uma revista com seu próprio nome. Porém,
o sucesso por aqui foi tamanho que, logo
nos primeiros dias de Janeiro de 1961, a Editora Abril arranjou um meio de
começar a estampar o nome do personagem nas capas ímpares do pato. Daí, então,
o título “O PATO DONALD APRESENTA: ZÉ CARIOCA”.
Mais precisamente, foi na edição
de número 479 que tudo isso começou - e as valiosas esquisitices também! Ainda
víamos o Donald e toda a família pato dividindo o conteúdo da revista e até,
algumas vezes, interagindo nas próprias histórias do Zé. Foi assim com a
primeira história do papagaio nessa primeira edição que levou seu nome
estampado na capa: ZÉ CARIOCA CONTRA O GOLEIRO GASTÃO.
Ao todo, estima-se que entre 1961
e 1970, Jorge Jato produziu 43 HQs com o Zé. Além disso, também trabalhou com
os demais personagens tão conhecidos e queridos por todos como Mickey, Donald,
Patinhas, Escoteiros Mirins e Maga Patalójica, por exemplo. Totalizando tudo,
exatamente tudo, dá um total de 58 HQs criadas por ele. Isso sem contar a fase
dos “remakes” onde pagava-se as tramas dos Estados Unidos e mudavam os
personagens para inserir o papagaio e, assim, ter uma aventura supostamente
nova. Nesse quesito, foram “reproduzidas” um total de 128 HQs, sendo 99 dele e
as outras de autoria de outro grande artista brasileiro: Waldyr Igayara de Souza. Muitos desses “remakes” eram originários
de obras dos seguintes autores:
-
Paul
Murry;
-
Tony
Strobl;
-
Al
Hubbard;
-
Bill
Wright;
-
Al
Tagliaferro;
-
Floyd
Gottredson;
-
Manuel
Gonzales
De tanto ver
Chiquinho e Francisquinho com Zé Carioca, cheguei a pensar que talvez Zico e
Zeca não tivessem sido criados nessa época. Ledo engano: foi exatamente Jorge
Kato quem os criou, mas não os encontrei nesse Frankstein justamente porque
suas primeiras aparições aconteceram no número 565 (4 de Setembro de 1962), em
substituição aos nossos queridíssimos Huguinho, Zezinho e Luisinho. E, como já
afirmei, tenho apenas até o número 555, ou seja, dez edições anteriores.
Jorge Kato
faleceu de causas não divulgadas (se alguém souber, ajuda aí, põe nos comentários,
por favor!) em 7 de Novembro de 2011 onde vivia, em São Paulo (Capital). Seus
últimos trabalhos foram capas. Dizem que a última que fez consta como sendo a
de ZÉ CARIOCA 1307, uma edição especial publicada pela Editora Abril no mês de
Novembro 1976. No entanto, há uma história sua de apenas uma página – e dizem que esta foi a ultima
que desenhou – na revista ANOS DE OURO DO ZÉ CARIOCA 3 (Janeiro de 1990).
Somando todos
os trabalhos que fez para a Editora Abril, temos:
- 4
propagandas;
- 58 HQs
produzidas;
- 99 “reproduzidas”;
- 698 capas
para revistas Disney/Abril.
Jorge Kato foi
um dos pilares a toda essa estrutura de
segmento tal qual conhecemos da Editora Abril, ao longo dos anos – uma da
alavancas mais essenciais para toda a gama de publicações que estão ao nosso
alcance, hoje em dia.
Mesmo estando com meu Frankstein em péssimas
condições (já o ganhei assim), não abrirei mão dele. Recentemente, doei uma
porção de revistas antigas as quais ganhei de um amigo, para que outros
pudessem conhecer e dar maior valor a elas, agregando todo o zelo e o amor os
quais já não se mantinham mais no meu peito. Porém, essa edição precursora do
Disney JUMBO continua comigo – aos trancos e barrancos, mas permanecerá aqui.






P.S.: Só agora, pesquisando ainda mais no site do Inducks o uso de algumas imagens, foi que descobri que meu Frankstein do Zé nada mais é do que um exemplar mal conservado de ANOS DE OURO DO ZÉ CARIOCA 3, que contém 468 páginas e foi publicado em Janeiro de 1990. Ah, ah, ah! Que emoção!!!
Fontes de dados e informações que tornaram possíveis esta postagem:
Desde já agradeço a cada site, a cada página, a cada pessoa envolvida nessas fontes de dados e informações. Muito obrigado, pois a existência de vocês e seus projetos foram essenciais para a elaboração deste. Agradeço também a todos os visitantes e um obrigado especial a todos aqueles que deram um pouco de seu tempo para ler, ver e degustar - de todas as formas mais gostosas - de tudo o que consegui incluir aqui. Muito obrigado pelo tempo de vocês, a consideração, a presença e (se houver) também pelos comentários os quais certamente me deixarão ainda mais contente.
Abraços a todos.
Fabiano Caldeira.